Coletivo de grupos e criadores independentes das artes cênicas em Recife, Pernambuco. Nasceu da necessidade de diálogo entre os artistas sobre as linguagens cênicas, buscando a manutenção dos trabalhos de pesquisa e investigação teatral.

Em encontros semanais são realizadas vivências práticas e teóricas sobre a reflexão e o questionamento do fazer teatral contemporâneo em seus aspectos poéticos, estéticos e políticos.

Traga sua experiência também!

Encontros semanais

TODAS AS TERÇAS, ÀS 19H!
No Espaço Compassos
Rua da Moeda, 93, 1º andar, Bairro do Recife. (Entrada pela Rua Mariz de Barros – casa rosa com janelas amarelas)

Como participar:

1º passo: Procure um dos membros das Comissões através do email: colaborativopermanencia@gmail.com;

2º passo: Apareça para conhecer as atividades do coletivo, nos encontros semanais das terças-feiras.

24 de set de 2008

Próximo Ato Recife!

Nesta segunda-feira, 29, o Próximo Ato - Encontro Internacional de Teatro Contemporâneo chega ao Recife (PE). A 6ª edição do evento, realizada este ano, abriu seu ciclo de atividades em Belo Horizonte (MG) e passa ainda por Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP).

Em Pernambuco, representantes de grupos de teatro e interessados poderão participar de troca de experiências e debates sobre os caminhos do teatro coletivo no Brasil. O evento conta com o apoio do Consulado Geral da França em São Paulo e Recife.

No site permanente do Próximo Ato é possível conferir textos de especialistas no assunto, além do histórico das edições anteriores. O blog, com conteúdo atualizado durante o evento deste ano, abre espaço para opiniões, sugestões, fotos e matérias relacionadas ao encontro. Acesse!
Confira a programação no Recife:

segunda 29 19h
abertura do evento com a presença dos grupos de teatro do Nordeste (Teatro Apolo)*
terça 30 9h30
compartilhamento de metodologias de criação com representantes dos grupos convidados (Teatro Armazém 14)
15h espaço abertofórum com grupos (Teatro Armazém 14)
19h30 mesa Experiência e Forma com Jean-Pierre Thibaudat (França) e Kil Abreu (Brasil) (Teatro Apolo)*
quarta 1 9h30
compartilhamento de metodologias de criaçãocom representantes dos grupos convidados (Centro de Pesquisa Teatral do Recife e Teatro Armazém 14)
15h espaço abertofórum com grupos (Teatro Armazém 14)
19h30 encerramentocom Kil Abreu (Brasil), Jean-Pierre Thibaudat (França) e participação virtual de grupos do Sudeste (Teatro Apolo)

** apenas as atividades da noite serão abertas ao público - teatro com capacidade para 200 pessoas

Teatro Apolo Rua do Apolo 121 Recife Antigo
informações 81 3232 2030

Centro de Pesquisa Teatral do Recife (CPT) Travessa do Amorim 66 Recife Antigo
informações 81 3083 0600

Teatro Armazém 14 Avenida Alfredo Lisboa Cais do Porto
informações 81 3424 5613

11 de set de 2008

Caminhos autorais para a construção da presença cênica

Considerações sobre a vivência proposta pelo Núcleo Viventes em maio de 2008:
 
O foco de nossa vivência foi a proposição de possíveis caminhos para a construção de um corpo expressivo e de uma maneira presente de estar em cena. Acreditamos em caminhos concretos tanto para a construção da presença cênica, quanto para a manutenção da organicidade, do frescor e da vida interior no corpo-artista em cena. A atividade foi dividida em três encontros práticos e um quarto reservado para a discussão da prática vivenciada. Nesses encontros foi possível aplicar de modo sucinto algumas de nossas propostas atuais.
A investigação do Núcleo Viventes se baseia principalmente na criação de caminhos para a construção de um corpo expressivo. Através de exercícios psicofísicos, buscamos uma dilatação corporal, um despertar das nossas energias potenciais adormecidas. Partindo de estímulos imagéticos, musicais, táteis e verbais, procuramos romper com a comunicação cotidiana, possibilitando que nosso corpo (psíquico e físico) vivencie estados distintos dos que são necessários para realizar as tarefas cotidianas.
Nossa formação artística é influenciada pela intensa experiência que tivemos com a metodologia do Lume (núcleo interdisciplinar de pesquisas teatrais da Unicamp), desta forma, buscamos uma dramaturgia que vem do corpo, de seus cantos, recantos e encantos. Através da exploração minuciosa da musculatura, descobrimos melodias, cores, poéticas que emanam desse nosso corpo de cada dia - o corpo cotidiano. Quando estimulado e trabalhado num contexto extra-cotidiano, descobrimos novas formas de desenhar esse corpo no espaço e no tempo.
Acreditamos em caminhos autorais de criação, deste modo, tentamos colocar os participantes em contato com modos de construção de um fazer pessoal. Nossa proposta passa sobretudo pela construção de um sentido pessoal de cada um para com sua prática. Essa proposta de trabalho se trata de um exercício de re-conexão, uma busca por memórias musculares afetivas, um vasculhar interno e pessoal.


Lineu Guaraldo e Tainá Barreto

Núcleo Viventes de pesquisas e criação

A voz em Ação na Cena - Parte 1













Estar imerso dentro das práticas e reflexões acerca da voz e de seu uso poético nas artes, é deparar-se com um vasto e sensível campo subjetivo. Costumo dizer que a voz nasce nos espaços entre o corpo e a mente, ocupa o mundo, materializando idéias e paixões.

Tanto artisticamente, como na vida cotidiana, é possível identificar três instâncias expressivas da voz humana: Vocalidade, Verbalidade e Musicalidade. Chama-se Vocalidade os fluxos sonoros que compreendem os sons relacionados aos impulsos e instintos (gemidos de dor, gritos de medo, suspiros de alívios, grunidos, entre outros). A Verbalidade diz respeito ao uso das palavras pertencentes a determinado código linguístico. E a Musicalidade é uma associação de recursos melódicos, harmônicos e rítmicos à voz, podendo abarcar o universo das Vocalidades e Verbalidades.

Lançando um olhar analítico sobre as recentes abordagens críticas de treinamentos vocais para as artes cênicas, constata-se um consenso: A produção da voz deve estar intimamente ligada a uma proposta corporal, abrangendo as três instâncias expressivas já citadas (Vocalidade, Verbalidade e Musicalidade), integrando a geografia da cena (configurações da encenação), localizando e mapeando as dinâmicas respiratórias, intensidades, timbres, tonalidades, deslocamentos, zonas de solidão e solilóquio, convívios e contracenas, instaurando no palco o habitat natural do atuante.

O treinamento vocal eficiente leva em consideração a estruturação orgânica do aparelho fonador e respiratório, correlacionando-os com todo o restante do corpo, construindo assim a consciência Corpo-Vocal.

O artista do palco deve conhecer e reconhecer seu material físico e mental (corpo e mente) direcionando-se para a construção cênica através de uma ação prévia, que chama-se "pré-para-a-ação" (preparação). Esse momento assume a característica de uma etapa formativa, onde estruturam-se os condicionamentos, os exercícios práticos e as reflexões sobre os usos e as possibilidades da voz cênica.

Orientar, em primeiro lugar, para o "manuseio" correto da respiração faz-se extremamente necessário. O total controle da respiração constitui elemento primordial para a excelência do trabalho cênico. A real noção de como manipular o ar é uma premissa para a obtenção de resultados artísticos mais consitentes. O bom artista cênico é aquele que sabe reger o fluxo de ar de dentro para fora, de fora para dentro. É aquele que rege o sopro e as palavras. É sabido que atores, performers, bailarinos, cantores e circenses, respiram muito a cima do registro cotidiano. E isso quer dizer tudo quando justifica-se a importância de uma total gerência dos mecanismos relacionados ao processo respiratório.

Na familiarização com as três partes cosntituintes da respiração (inspiração, expiração e retenção), obtém-se a capacidade de elaboração de significados poéticos e uma enorme quantidade de recursos técnicos e estilísticos, no tocante ao trato com as palavras, e com o próprio corpo em seus deslocamentos e imobilidades.

Trabalhar diretamente sobre a respiração requer uma entrega corporal. "Respirar bem na cena" compreende a atitude consciente de abrir os espaços internos do corpo inspirando o ar, retendo-o e expirando-o; cabendo durante fases de treinamento técnico ou como recurso estilístico, durante a representação ou performance, a retenção dos pulmões esvaziados depois da etapa expiratória.

Quando inspiramos, expandimos os pulmões, que inflam, e o músculo diafragma desce. Com esse abaixamento do diafragma, outros orgão sofrem um deslocamento. E quando expiramos os pulmões secam e o diafragma sobe, reposicionando a estrutura deslocada na expiração. É claro que muitos outros fenômenos acontecem numa respiração completa: sangue oxigenado corre pelo corpo propiciando a troca gasosa para as células, impulsos elétricos são estimulados, em nível cerebral, os tecidos renovam-se e expelem toxinas, etc. A respiração é um processo que integra todo o organismo em prol da manutenção vital.

Ao lidarmos artisticamente com a respiração, estamos manipulando toda uma rede microscópica de alterações internas. Respirando em cena, podemos retardar a chegada do ar nos pulmões, e com isso alterar o PH do sangue; podemos estimular as glândulas lacrimais, provocando o choro; acionar centros nervosos, responsáveis pelo riso, pela tristeza, pela libido, pela raiva, entre outros.
Pra produzir sons, palavras, gestos e movimentos em arte, respira-se com uma outra dinâmica, diversa da cotidiana. Na vida do "dia-a-dia", tendemos para o relaxamento. No palco, diferentemente, as tensões, as zonas de conflitos, evidenciam-se pelo truque, pelo efeito, pelo risco, pelo dramático, pelo cômico e pelo trágico.
Existindo uma comunhão, um padrão respiratório instaurado no ato da representação, o público e o(s) artista(s) tornam-se cúmplices. Essa cumplicidade dá-se, em grande parte, por uma frequência aeróbica vinda do espaço cênico, que leva o público para o processo cinestésisco. Quando o público não compartilha da mesma dinâmica respiratória com a cena, deflagra-se a dispersão, a desatenção. O público tem de estar dentro do jogo.
Carlos Ferrera
(Diretor/Encenador/Preparador Vocal/Cantor/Compositor/Ator/Dramaturgo)
Cia. Santa Fogo