Coletivo de grupos e criadores independentes das artes cênicas em Recife, Pernambuco. Nasceu da necessidade de diálogo entre os artistas sobre as linguagens cênicas, buscando a manutenção dos trabalhos de pesquisa e investigação teatral.

Em encontros semanais são realizadas vivências práticas e teóricas sobre a reflexão e o questionamento do fazer teatral contemporâneo em seus aspectos poéticos, estéticos e políticos.

Traga sua experiência também!

Encontros semanais

TODAS AS TERÇAS, ÀS 19H!
No Espaço Compassos
Rua da Moeda, 93, 1º andar, Bairro do Recife. (Entrada pela Rua Mariz de Barros – casa rosa com janelas amarelas)

Como participar:

1º passo: Procure um dos membros das Comissões através do email: colaborativopermanencia@gmail.com;

2º passo: Apareça para conhecer as atividades do coletivo, nos encontros semanais das terças-feiras.

24 de nov de 2009

CINECLUBE COLABORATIVO: Debate e construção colaborativa

Dando continuidade as atividades do Cineclube Colaborativo, esta semana ocorrerá a segunda sessão do projeto, que investe no diálogo entre teatro e audiovisual.

Trazendo com temática “Corpo e Afastamento”, a sessão deste sábado decorre das discussões do filme “O Grande Chefe”, de Lars von Trier, exibido na sessão inaugural do cineclube, obra em que conceitos típicos do vocabulário brechtiano são rearticulados para a linguagem cinematográfica. Neste sábado, o público presente assume um papel ativo na construção da exibição, uma vez que apenas um curta-metragem está selecionado como mote para a sessão (“Meshes of the afternoon”, de Maya Daren e Alexander Hamid - 1943). As outras obras a serem exibidas serão definidas durante o encontro e no desenrolar do debate, estando disponibilizada conexão com a Internet para esta “curadoria colaborativa”.

Além do Cineclube Colaborativo, última atividade programada pelo coletivo este ano, o Colaborativo Permanência está disponibilizando em seu blog uma série de textos sobre sua participação no encontro Próximo Ato, que aconteceu no início de novembro na cidade de São Paulo. O primeiro deles é a transcrição da palestra do alemão Hans Thies Lehmann, Formas de Convívio: políticas da subjetividade, feito por Henrique Fontes, do Atores à Deriva, de Natal (RN).

SERVIÇO

Cineclube Colaborativo

Sábados quinzenalmente (14 e 28 de novembro e 12 de dezembro)

Local: Sala da Compassos Cia. de Danças - Rua da Moeda, 93, 1º andar, Recife Antigo (na esquina com a Rua Mariz de Barros – casa rosa com janelas amarelas – entrada pela Rua Mariz de Barros)

Horário: 15h

Neste sábado, 28 de novembro: sessão colaborativa com o tema “Corpo e Afastamento” e exibição de “Meshes of the afternoon”, de Maya Daren e Alexander Hamid - 1943

Entrada Franca

Contatos: Marco Bonachela - zigbonachela@gmail.com / (81) 87572006 - 81232140

23 de nov de 2009

Exemplo a ser seguido!

Caros Amigos do Teatro!

Posto aqui, como exemplo a ser seguido, a Carta Aberta, enviado por Álvaro Santi, titular do conselho nacional de cultura, ao presidente da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil.

Acredito ser mais do que na hora de tomarmos atitudes similares frente às nossas autoridades representativas, incitando-as a darem respostas convincentes dos serviços que deveriam ser prestados à classe.

"Carta aberta ao presidente da Ordem dos Músicos do Brasil
Álvaro Santi 18 novembro 2009 12 Comentários

Senhor Presidente: No mês em que se comemora, dia 22, mais um “Dia do Músico”, acuso o recebimento do habitual boleto bancário, que me envia V. Sa. sem falta desde 1985, quando recebi com orgulho minha carteira de músico, emitida no exato dia em que completei a maioridade. Acompanha o boleto a habitual missiva, a me lembrar que “a Ordem é dos Músicos”; e o adesivo com a frase “Músico, valor em si”. Uma vez mais, pergunto-me que valor seria este que só o músico tem “em si”. E constato que todo o conteúdo deste envelope me causa a mais profunda frustração.

Sinto pois a necessidade de confessar-lhe, Sr. Presidente, que este ano gostaria de receber outra coisa. Algo surpreendente, como notícias do processo eleitoral. Melhor ainda, a notícia de que o famigerado Código Eleitoral foi alterado, estendendo o voto a todos os músicos, já que há mais de 20 anos só votam os que lêem música, ainda que tal discriminação não tenha amparo legal e, é claro, todos recebam o boleto idêntico.

Mande-nos notícias também sobre os esforços que a OMB, autarquia federal integrada ao Poder Executivo, tem feito em nosso benefício, promovendo o debate e o encaminhamento de questões sérias como a informalidade, a pirataria ou a educação musical (matéria de lei federal recentemente aprovada); entre outras. Quisera conhecer as propostas, elaboradas por V. Sa. e seus pares, mui dignos membros dos nossos Conselhos Federal e Estaduais, para a urgente atualização da Lei 3.857/60, que no ano que vem completará 50 anos sem uma única alteração! Quisera mesmo saber quantos músicos lograram se aposentar no Brasil como músicos, neste período. E quem sabe ainda, que luxo, receber de V. Sa. uma prestação de contas sobre os valores arrecadados neste meio século, especialmente através do célebre Artigo 53 da mesma lei, aquele que destina à OMB 10% do valor do cachê dos músicos estrangeiros, assunto que a imprensa já abordou, apontando o subfaturamento do contrato dos Rolling Stones. Ou ainda, saber de V. Sa. que medidas foram tomadas para que o caso, amplamente noticiado, do jornalista de Carta Capital que recebeu a carteira da OMB sem saber tocar, não se repita. Ou quem sabe, Sr. Presidente, conhecer da argumentação que o insigne departamento jurídico da OMB terá preparado a fim de combater a tese, que nos tribunais vai ganhando força, da “ausência de risco para a sociedade” no exercício da profissão de músico. Tese esta usada, ao abrigo da garantia constitucional da liberdade de expressão artística, com o intuito de desobrigar os músicos de seleção, registro ou pagamento de anuidade à OMB.

Ficaríamos felizes em saber, Sr. presidente, eu e outros que discordam ou têm restrições a essa tese, que a OMB vem recorrendo das sentenças. Argumentando, por exemplo, que quando um jovem toca por diversão em um bar, existe o risco, ou mesmo a certeza, de que mais um artista que há muitos anos escolheu viver da música profissionalmente, terá de encontrar outro meio de sustentar sua família. Como V. Sa. já deve ter percebido, sou um otimista incorrigível e seguirei aguardando essas boas novas. Se não no dia do músico, quem sabe no Natal. Nem precisa enviar pelo correio: ponha tudo no site. Mas se for para me enviar de novo essa tralha, Sr. Presidente, por favor, não gaste mais selo comigo. Economize, que é tempo de crise.

Cordiais saudações.

Álvaro Santi
Titular do Conselho Nacional de Política Cultural
OMB/RS 21.782

11 de nov de 2009

CINECLUBE COLABORATIVO - AUDIOVISUAL E CÊNICAS EM DEBATE

São cada vez mais claras as intreações entre as linguagens artísticas na cena contemporânea. No intuito de aprofundar a reflexão sobre a hibridização entre o audiovisual e as artes cênicas o Colaborativo Permanência, coletivo de grupos e artistas independentes de Pernambuco, dá início no próximo sábado as atividades do Cineclube Colaborativo – um espaço para exibição e debate de produtos audiovisuais.

Com uma frequência quinzenal, o Cineclube Colaborativo propõe uma metodologia diferenciada para a contrução de suas sessões, que serão experimentadas nas três edições do evento realizadas ainda este ano (14 e 28 de novembro e 12 de dezembro). Além da sessão tradicional, na qual ocorre a exibição de um longa-metragem seguida de debate, a Internet e a participação do público serão elementos ativos na construção de cada sessão. A ideia é agregar o caráter colaborativo do grupo na articulação de novas possbilidades e trocas na área de audivisual e artes cênicas.

Nesta primeira edição, o Cineclube exibe “O Grande Chefe” (Direktøren for Det Hele, 2006), comédia do cineasta dinamarquês Lars von Trier que satiriza o mundo corporativo e utiliza vários artifícios típicos da linguagem teatral.

A atividade encerra as ações do Colaborativo Permanência neste ano, que contou com diversas oficinas, vivências práticas e debates, com destaque para a recente participação no encontro Próximo Ato, em São Paulo. Em 2010, o foco do coletivo encontra-se na consolidaçao de sua rede de colaborados, além da concorrência em editais visando condições para a ampliação de suas atividades.

SERVIÇO
Cineclube Colaborativo
Sábados quinzenalmente (14 e 28 de novembro e 12 de dezembro)
Local: Sala da Compassos Cia. de Danças - Rua da Moeda, 93, 1º andar, Recife Antigo (na esquina com a Rua Mariz de Barros – casa rosa com janelas amarelas – entrada pela Rua Mariz de Barros)
Horário: 16h
Neste sábado, 14 de novembro: exibição de “O Grande Chefe”, de Lars von Trier
Entrada Franca
Contatos: Marco Bonachela - zigbonachela@gmail.com / (81) 87572006 - 81232140

Olá, Gente! Começarei a postar alguns textos, que surgiram das reflexões propostas pelo projeto PRÓXIMO ATO, do Instituto Itaú Cultural.
O primeiro deles é a trancrição da Palestra do alemão Hans Thies Lehmann, FORMAS DE CONVÍVIO: POLÍTICAS DA SUBJETIVIDADE, feito por Henrique Fontes, do Atores à Deriva, de Natal (RN).

Próximo Ato, Itaú Cultural, São Paulo 06/11/09

Formas de Convívio: Políticas da Subjetividade

Hans Thies Lehmann

O livro “Escritura Política no Texto Teatral” é uma coletânea de ensaios da década de 90 até hoje, São assuntos diferentes, mas eu estou muito feliz que este e “O Teatro Pos Dramático” tenham sido lançados no Brasil e que tenha havido um grande interesse sobre esse teatro.

No entanto, é bom lembrar que se a gente receber o teatro pós-dramático como uma marca e não aceitarmos as outras formas, estaremos sendo de novo limitados. Fico tocado pelo interesse por esse tema. Fico feliz que tenha tantas pessoas interessadas.

Hoje eu queria dizer alguma coisa do teatro mais ou menos político dos grupos que agem na Alemanha.

Heiner Müller e Brecht são as pedras fundamentais do teatro político até hoje. Eles sempre apontam uma reflexão sobre o teatro atrelado à reflexão social. Existe em Brecht ainda uma ingenuidade sobre o futuro do Homem, no entanto. Müller escreve após a experiência do socialismo e Brecht antes, essa é uma diferente muito grande.

Vejo na Alemanha um retorno da cultura do Grupo de Teatro.

Gostaria de dar o exemplo do “R. Protocol”[não sei a grafia certa] que é um grupo de teatro formado por 3 pessoas e que talvez seja o principal grupo de Teatro Alemão.
Eles se revezam em várias funções. Em uma peça deles o público circulava pela cidade de caminhão e recebia várias informações sobre o dia-dia dos caminhoneiros e isso se tornou tão claro e absurdo que oras se pensava que não eram reais todas aquelas informações em tom documental.

Não havia ideologia nessa experiência, o publico poderia aceitar ou não.

O interesse dos grupos teatrais se deslocou de fazer uma critica direta da situação e passou a trabalhar com uma situação absurda e lúdica que acaba mostrando os fatos. Os grupos trabalham com o aspecto documental e o publico é quem tira suas conclusões.

As diferenças de hoje com as décadas de 60, por exemplo, é que vivenciamos a globalização de maneira mais direta, mas não há confiança de que encontramos uma resolução para ela. Ver a realidade com exatidão leva o espectador a ver algo diferente.

Há muitas formas de se fazer teatro de forma política sem se assumir diretamente isso.

Há teóricos que foram muito inspiradores dessa forma no teatro da Alemanha como Marc Augé e Michel de Certaud [não sei a grafia correta], este último acentua nas estruturas de formas pessimistas, sempre enxergando uma forma diferente de se fazer teatro. A perda da utopia gera essa nova forma.
A posição do espectador ocupa, nesse teatro, uma forma central. Enquanto não mudarmos a posição do espectador nas peças, apenas estaremos mudando as imagens que eles vêem.

Há um outro grupo na Alemanha em que a platéia, ao chegar na peça, recebe instruções para brincar e eles brincam juntos com os atores. É uma possibilidade do espectador de ter uma experiência entre eles mesmos.

Em um outro grupo, que montou uma peça chamada “Urban Heroes”, quando o espectador entrava no teatro ele recebia bandeirinhas para cumprimentar os herois e todos agitavam as bandeiras e depois entravam no teatro e aí passavam a ver filmes onde os heróis foram perguntados o que fazer para se tornar herói. Víamos depois apenas situações urbanas vivenciadas por aqueles heróis há pouco tempo na rua. Tornava-se claro que os heróis celebrados já não existem mais.

Acho muito importante esta situação reduzida que reflete a situação social

Há hoje uma fome de realidade no teatro. Podemos dizer que na década de 80 fomos dominados por uma invenção visual e hoje chegamos numa fase onde essas invenções de então estão sendo revisitadas, mas isso resulta que a forma de produção e sua colocação política estão entrelaçadas.

Antes se pensava que se podia fazer teatro como numa fabrica, com chefe e comandados e aí o conteúdo da peça poderia ser uma verdadeira campanha pela igualdade social. Há hoje companhias que ainda pensam que se pode fazer esse tipo de teatro. Hoje isso é considerado um modelo contraditório.

No entanto, hoje nos grupos mais novos algo mudou.

O grupo “Back bunda” da Noruega de fato tem uma atmosfera de convívio no grupo, isentos de tensões e hierarquias. Eles eram tanto profissionais como amigos. Os temas das peças propostas por eles, nessa atmosfera, se apresentavam de forma mais leve e com humor. As historias eram contadas com muitos clichês noruegueses

Eu gostaria de dar uma dica que eu entendo hoje diferente, trata-se do grupo “En company”. Eles virão para São Paulo, tudo indica ano que vem. Este grupo, formado por estudantes e técnicos, escolheram como tema central a lembrança do comunismo – talvez porque um dos integrantes do grupo vem de uma família comunista da Alemanha ocidental.

A partir da experiência pessoal eles trabalharam com a lembrança das pessoas para quem o comunismo era uma meta de vida. Eles não levam o assunto com toda a seriedade, mas misturam perguntas e respostas cômicas, cantam musicas da época, enfim, abrem um espaço lúdico que é um exemplo de reviver o que se fazia nos anos 60.

Em Nova York eles tiveram um publico entusiasta.

Uma forma bem diferente dessa retomada não aos anos 60 mas aos primórdios do teatro é o principio do Coro. O coro da antiguidade retornou.

Há um diretor alemão que junta um coro de pessoas da rua e forma um coro real falando de situações cotidianos. Ver o coro dos cidadãos cria em nós, uma nova força de auto-representação.

Também existe uma serie de diferentes pontos de partida. No fim eu diria que o político é o que é tratado nesses ensaios. O aspecto político parece existir nesse trabalho de grupo porque a maneira como fazem tem um dimensão política. Não o que eles apresentam, o conteúdo. O trabalho é feito a partir de uma insegurança, uma precariedade. Sem perspectiva de continuação. Frequentemente eles estão à margem das instituições. As instituições começam a notar que tem que trabalhar com eles para poder se renovar. No entanto, os grupos continuam a trabalhar com autonomia.

Os grandes teatros do nosso país estão em crise. Do ponto de vista artesanal está se fazendo bom teatro nesses grandes teatros, mas tratam de nada. Enquanto que esses grupos “Marginais” parecem estar tocando mais fundo.

Agora, gostaria de levar a um nível teórico.

No último artigo do livro eu tento defender o teatro com uma forma de diálogo com a sociedade. Alguém poderia ler já em Português?

(Sônia lê trecho das páginas 404 e 405 do livro Escritura Política No Texto Teatral):

Perguntas

1 - O senhor poderia falar sobre a importância do Riso e da Ironia nesse teatro de grupo de hoje?

Eu posso tentar – Ironia é um conceito antigo que se usou em combinação com o romantismo. Hoje acho que a ironia é uma arma de defesa de muitos artistas porque a onipresença das imagens pré-fabricadas é monstruosa. É cada vez mais difícil a maneira da arte tradicional inventar um discurso próprio. A gente responde ironicamente ao discurso que está por aí. É complicado fazer isso, mas talvez seja a única forma possível.
Eu vejo a ironia como uma forma dialética, ora é um signo, ora o contrario. Oras é uma certa impotência diante do discurso dominante e ora é uma forma de resistência.

Os atores nas ruas assumem as estruturas pré –escritas e as invertem. Isso ocorre frequentemente em projetos urbanos.

Outra coisa é o riso do divertimento, ontem durante a conferência da Abrace eu falei que achava muito importante que na comunicação estética, se procure o efeito da piada. Quando conto uma piada eu não quero que digam: “entendi”, mas quero que riam. Mas existe essa teoria maravilhosa do Chiste do Freud que diz que aquele que ouve o chiste venceu uma proibição, uma agressão , um assunto erótico aparece, e há um confronto do consciente e do inconsciente, aí rimos.

Isto é um riso de libertação e não tem que ser uma gargalhada pode ser um pranto, algo triste, mas tem a ver com o sentimento. Não só com a transmissão de um saber. O grupo também tem que se divertir.

Vou citar Brecht – “se a gente não achar graça do que fizermos o público não vai achar graça. Achar graça no sucesso não tem graça nenhum. Brincadeirinhas não tem graça nenhuma.” Ele queria dizer algo muito serio. Ele queria dizer que quem faz tem que fazer com prazer senão o público não iria gostar de vê-los.

Mas ele não afirmou isso categoricamente. Brecht colocou muito mais perguntas no mundo do que respostas.


2 - Há uma resistência em adotar essas mudanças na cena teatral. Isso ainda persiste hoje? Há alguma regressão nas questões contemporâneas?


Bom, em principio eu sou bastante cético quando se usa a palavra regressão porque o movimento continua, as pessoas falam na Alemanha que as pessoas não lutam mais, não sabem ser revolucionárias. Acho que não, sempre há uma indignação. “Haverá teatro, enquanto houver o protesto dos homens contra os deuses que são sempre injustos.”

O teatro procura hoje mais o diálogo com o público do que já vez antes. A fome de realidade significa que há fome de discussão das questões sociais. Não acredito que a dita “pos-modernidade” seja uma regressão. Os seres humanos que usam seus celulares, que usam internet, e que vão pra o cinema frenético precisam de outro tipo de teatro. Mas há também espaço para a tradição. O espectro do teatro se tornou muito grande. Mais de um teatro contem um potencial critico simplesmente porque exige do espectador uma concentração e paciência maior para ouvir. Focalizar algo diminuto. Não há so um modelo. Há a necessidade de se usar essa multimedia e achar graça nisso suas questões.

Exemplo, um diretor Alemão laurren ... faz um teatro onde vemos um performer mentalmente Nu. Não de fato nu. Só na mente. A relação é muito próxima sem o ator se esconder atrás de um profissional, ele é um ator, mas é “igual” a todos. Há uma “desprofissionalização” dos atores. O trabalho deles é esquecer tudo o que aprenderam e criam uma relação entre ator e espectador. É difícil e doloroso, mas é necessário.

Há também teatro que mantém a forma da concentração. Não podemos dizer que há uma forma só que seja boa. No entanto o que todas tem em comum é que o modelo clássico com diretor, autor, atores e todos os aspectos da dominação, no teatro estão sendo evitados.

3 -Será que não precisamos de utopia exatamente no teatro?

Ponto interessante e pode marcar a diferença entre o teatro brasileiro e o alemão. Existe no teatro alemão uma radicalidade em não querer reação em alguns casos. Não é por acaso que Artaud tenha sido um marco do teatro Frances, porque no teatro alemão há essa tradição de um teatro didático e a social democracia francesa pregou que teatro já tem a ver com educação.

Talvez haja outras formas de teatro que não estejam tão dominadas por essa visão de educação. Se você pega a França, por exemplo, a maioria dos grupos não trabalha em uma linha de teatro politicamente correta. Eles lidam de forma lúdica. O teatro deve ser um espaço onde o politicamente incorreto deve ser apresentado.

Hoje estamos numa fase, pelo menos na Alemanha, onde perguntamos. É um lugar onde podemos pensar num futuro, numa perspectiva política sem cair num esquema de analise marxista. Assim , pode e se está fazendo uma leitura diferente de Marx. Este, na sua teoria do capital, chamou a atenção mais da relação absurda do ser humano do que a exploração pelo capital.

Todo conceito de Marx sobre a revolução está acabado, mas isso não quer dizer que o que ele descreveu das relações sociais não seja válido hoje.

4 – Como você descreveria o Conceito de foco no teatro hoje. Qual o Real sentido ou quais os múltiplos sentidos?

Infelizmente este é um ponto no qual estou começando a refletir agora, por enquanto penso que focalização de atenção é fundamental e é um conceito contrario daquele da forma. O balé supervaloriza o trabalho da forma e há outras que não encontramos mais essa forma. Eu como espectador dessa nova forma, tenho que desenvolver uma capacidade de apreciação de gestos mínimos. Tenho que focar. Isso significa que o foco se afasta da conformação que sempre foi parte da teoria clássica.

Como se fosse um holofote naquilo que me interessa ver e refletir, mas ainda não avancei além disso. Eu ainda estou em busca da compreensão dessa forma, mas tem a ver com o dramático e pos-dramático, onde o dramático cria formas fictícias enquanto o pos-dramatico deixa brechas para serem completadas, relacionadas.



5 - A Forma está ligada diretamente com o teatro de hoje. O conteúdo das peças didáticas de Brecht, por exemplo, já não interessam?


Eu quero dizer apenas que naturalmente , é claro, que mesmo que tenhamos uma forma, ou uma não forma, a forma é decisiva e não o conteúdo. O conteúdo não faz a mínima diferença porque tudo, todo conteúdo já é colocado em circulação. A maneira de resistência esta mais na forma do que no conteúdo. Trazer uma forma que as pessoas não esperam pode mexer com as pessoas.

Brecht é um mito. É um desconhecido. O Brecht que o mundo todo conhece é o traduzido para inglês e isso é metade de Brecht. Muitos de seus textos são entendidos de forma muito errada. Existem vários Brechts.

Hoje existe a necessidade de redescobrir o Brecht muito atual das peças didáticas. Brecht e toda a sua atualidade. Em 2026, uma pequena profecia, os direitos de Brecht serão de domínio publico, 70 anos depois de quando ele morreu, aí teremos um novo Brecht. Acho que essa seria uma boa informação para terminarmos.


Hans Thies Lehmann

O livro “Escritura Política no Texto Teatral” é uma coletânea de ensaios da década de 90 até hoje, São assuntos diferentes, mas eu estou muito feliz que este e “O Teatro Pos Dramático” tenham sido lançados no Brasil e que tenha havido um grande interesse sobre esse teatro.

No entanto, é bom lembrar que se a gente receber o teatro pós-dramático como uma marca e não aceitarmos as outras formas, estaremos sendo de novo limitados. Fico tocado pelo interesse por esse tema. Fico feliz que tenha tantas pessoas interessadas.

Hoje eu queria dizer alguma coisa do teatro mais ou menos político dos grupos que agem na Alemanha.

Heiner Müller e Brecht são as pedras fundamentais do teatro político até hoje. Eles sempre apontam uma reflexão sobre o teatro atrelado à reflexão social. Existe em Brecht ainda uma ingenuidade sobre o futuro do Homem, no entanto. Müller escreve após a experiência do socialismo e Brecht antes, essa é uma diferente muito grande.

Vejo na Alemanha um retorno da cultura do Grupo de Teatro.

Gostaria de dar o exemplo do “R. Protocol”[não sei a grafia certa] que é um grupo de teatro formado por 3 pessoas e que talvez seja o principal grupo de Teatro Alemão.
Eles se revezam em várias funções. Em uma peça deles o público circulava pela cidade de caminhão e recebia várias informações sobre o dia-dia dos caminhoneiros e isso se tornou tão claro e absurdo que oras se pensava que não eram reais todas aquelas informações em tom documental.

Não havia ideologia nessa experiência, o publico poderia aceitar ou não.

O interesse dos grupos teatrais se deslocou de fazer uma critica direta da situação e passou a trabalhar com uma situação absurda e lúdica que acaba mostrando os fatos. Os grupos trabalham com o aspecto documental e o publico é quem tira suas conclusões.

As diferenças de hoje com as décadas de 60, por exemplo, é que vivenciamos a globalização de maneira mais direta, mas não há confiança de que encontramos uma resolução para ela. Ver a realidade com exatidão leva o espectador a ver algo diferente.

Há muitas formas de se fazer teatro de forma política sem se assumir diretamente isso.

Há teóricos que foram muito inspiradores dessa forma no teatro da Alemanha como Marc Augé e Michel de Certaud [não sei a grafia correta], este último acentua nas estruturas de formas pessimistas, sempre enxergando uma forma diferente de se fazer teatro. A perda da utopia gera essa nova forma.
A posição do espectador ocupa, nesse teatro, uma forma central. Enquanto não mudarmos a posição do espectador nas peças, apenas estaremos mudando as imagens que eles vêem.

Há um outro grupo na Alemanha em que a platéia, ao chegar na peça, recebe instruções para brincar e eles brincam juntos com os atores. É uma possibilidade do espectador de ter uma experiência entre eles mesmos.

Em um outro grupo, que montou uma peça chamada “Urban Heroes”, quando o espectador entrava no teatro ele recebia bandeirinhas para cumprimentar os herois e todos agitavam as bandeiras e depois entravam no teatro e aí passavam a ver filmes onde os heróis foram perguntados o que fazer para se tornar herói. Víamos depois apenas situações urbanas vivenciadas por aqueles heróis há pouco tempo na rua. Tornava-se claro que os heróis celebrados já não existem mais.

Acho muito importante esta situação reduzida que reflete a situação social

Há hoje uma fome de realidade no teatro. Podemos dizer que na década de 80 fomos dominados por uma invenção visual e hoje chegamos numa fase onde essas invenções de então estão sendo revisitadas, mas isso resulta que a forma de produção e sua colocação política estão entrelaçadas.

Antes se pensava que se podia fazer teatro como numa fabrica, com chefe e comandados e aí o conteúdo da peça poderia ser uma verdadeira campanha pela igualdade social. Há hoje companhias que ainda pensam que se pode fazer esse tipo de teatro. Hoje isso é considerado um modelo contraditório.

No entanto, hoje nos grupos mais novos algo mudou.

O grupo “Back bunda” da Noruega de fato tem uma atmosfera de convívio no grupo, isentos de tensões e hierarquias. Eles eram tanto profissionais como amigos. Os temas das peças propostas por eles, nessa atmosfera, se apresentavam de forma mais leve e com humor. As historias eram contadas com muitos clichês noruegueses

Eu gostaria de dar uma dica que eu entendo hoje diferente, trata-se do grupo “En company”. Eles virão para São Paulo, tudo indica ano que vem. Este grupo, formado por estudantes e técnicos, escolheram como tema central a lembrança do comunismo – talvez porque um dos integrantes do grupo vem de uma família comunista da Alemanha ocidental.

A partir da experiência pessoal eles trabalharam com a lembrança das pessoas para quem o comunismo era uma meta de vida. Eles não levam o assunto com toda a seriedade, mas misturam perguntas e respostas cômicas, cantam musicas da época, enfim, abrem um espaço lúdico que é um exemplo de reviver o que se fazia nos anos 60.

Em Nova York eles tiveram um publico entusiasta.

Uma forma bem diferente dessa retomada não aos anos 60 mas aos primórdios do teatro é o principio do Coro. O coro da antiguidade retornou.

Há um diretor alemão que junta um coro de pessoas da rua e forma um coro real falando de situações cotidianos. Ver o coro dos cidadãos cria em nós, uma nova força de auto-representação.

Também existe uma serie de diferentes pontos de partida. No fim eu diria que o político é o que é tratado nesses ensaios. O aspecto político parece existir nesse trabalho de grupo porque a maneira como fazem tem um dimensão política. Não o que eles apresentam, o conteúdo. O trabalho é feito a partir de uma insegurança, uma precariedade. Sem perspectiva de continuação. Frequentemente eles estão à margem das instituições. As instituições começam a notar que tem que trabalhar com eles para poder se renovar. No entanto, os grupos continuam a trabalhar com autonomia.

Os grandes teatros do nosso país estão em crise. Do ponto de vista artesanal está se fazendo bom teatro nesses grandes teatros, mas tratam de nada. Enquanto que esses grupos “Marginais” parecem estar tocando mais fundo.

Agora, gostaria de levar a um nível teórico.

No último artigo do livro eu tento defender o teatro com uma forma de diálogo com a sociedade. Alguém poderia ler já em Português?

(Sônia lê trecho das páginas 404 e 405 do livro Escritura Política No Texto Teatral):

Perguntas

1 - O senhor poderia falar sobre a importância do Riso e da Ironia nesse teatro de grupo de hoje?

Eu posso tentar – Ironia é um conceito antigo que se usou em combinação com o romantismo. Hoje acho que a ironia é uma arma de defesa de muitos artistas porque a onipresença das imagens pré-fabricadas é monstruosa. É cada vez mais difícil a maneira da arte tradicional inventar um discurso próprio. A gente responde ironicamente ao discurso que está por aí. É complicado fazer isso, mas talvez seja a única forma possível.
Eu vejo a ironia como uma forma dialética, ora é um signo, ora o contrario. Oras é uma certa impotência diante do discurso dominante e ora é uma forma de resistência.

Os atores nas ruas assumem as estruturas pré –escritas e as invertem. Isso ocorre frequentemente em projetos urbanos.

Outra coisa é o riso do divertimento, ontem durante a conferência da Abrace eu falei que achava muito importante que na comunicação estética, se procure o efeito da piada. Quando conto uma piada eu não quero que digam: “entendi”, mas quero que riam. Mas existe essa teoria maravilhosa do Chiste do Freud que diz que aquele que ouve o chiste venceu uma proibição, uma agressão , um assunto erótico aparece, e há um confronto do consciente e do inconsciente, aí rimos.

Isto é um riso de libertação e não tem que ser uma gargalhada pode ser um pranto, algo triste, mas tem a ver com o sentimento. Não só com a transmissão de um saber. O grupo também tem que se divertir.

Vou citar Brecht – “se a gente não achar graça do que fizermos o público não vai achar graça. Achar graça no sucesso não tem graça nenhum. Brincadeirinhas não tem graça nenhuma.” Ele queria dizer algo muito serio. Ele queria dizer que quem faz tem que fazer com prazer senão o público não iria gostar de vê-los.

Mas ele não afirmou isso categoricamente. Brecht colocou muito mais perguntas no mundo do que respostas.


2 - Há uma resistência em adotar essas mudanças na cena teatral. Isso ainda persiste hoje? Há alguma regressão nas questões contemporâneas?


Bom, em principio eu sou bastante cético quando se usa a palavra regressão porque o movimento continua, as pessoas falam na Alemanha que as pessoas não lutam mais, não sabem ser revolucionárias. Acho que não, sempre há uma indignação. “Haverá teatro, enquanto houver o protesto dos homens contra os deuses que são sempre injustos.”

O teatro procura hoje mais o diálogo com o público do que já vez antes. A fome de realidade significa que há fome de discussão das questões sociais. Não acredito que a dita “pos-modernidade” seja uma regressão. Os seres humanos que usam seus celulares, que usam internet, e que vão pra o cinema frenético precisam de outro tipo de teatro. Mas há também espaço para a tradição. O espectro do teatro se tornou muito grande. Mais de um teatro contem um potencial critico simplesmente porque exige do espectador uma concentração e paciência maior para ouvir. Focalizar algo diminuto. Não há so um modelo. Há a necessidade de se usar essa multimedia e achar graça nisso suas questões.

Exemplo, um diretor Alemão laurren ... faz um teatro onde vemos um performer mentalmente Nu. Não de fato nu. Só na mente. A relação é muito próxima sem o ator se esconder atrás de um profissional, ele é um ator, mas é “igual” a todos. Há uma “desprofissionalização” dos atores. O trabalho deles é esquecer tudo o que aprenderam e criam uma relação entre ator e espectador. É difícil e doloroso, mas é necessário.

Há também teatro que mantém a forma da concentração. Não podemos dizer que há uma forma só que seja boa. No entanto o que todas tem em comum é que o modelo clássico com diretor, autor, atores e todos os aspectos da dominação, no teatro estão sendo evitados.

3 -Será que não precisamos de utopia exatamente no teatro?

Ponto interessante e pode marcar a diferença entre o teatro brasileiro e o alemão. Existe no teatro alemão uma radicalidade em não querer reação em alguns casos. Não é por acaso que Artaud tenha sido um marco do teatro Frances, porque no teatro alemão há essa tradição de um teatro didático e a social democracia francesa pregou que teatro já tem a ver com educação.

Talvez haja outras formas de teatro que não estejam tão dominadas por essa visão de educação. Se você pega a França, por exemplo, a maioria dos grupos não trabalha em uma linha de teatro politicamente correta. Eles lidam de forma lúdica. O teatro deve ser um espaço onde o politicamente incorreto deve ser apresentado.

Hoje estamos numa fase, pelo menos na Alemanha, onde perguntamos. É um lugar onde podemos pensar num futuro, numa perspectiva política sem cair num esquema de analise marxista. Assim , pode e se está fazendo uma leitura diferente de Marx. Este, na sua teoria do capital, chamou a atenção mais da relação absurda do ser humano do que a exploração pelo capital.

Todo conceito de Marx sobre a revolução está acabado, mas isso não quer dizer que o que ele descreveu das relações sociais não seja válido hoje.

4 – Como você descreveria o Conceito de foco no teatro hoje. Qual o Real sentido ou quais os múltiplos sentidos?

Infelizmente este é um ponto no qual estou começando a refletir agora, por enquanto penso que focalização de atenção é fundamental e é um conceito contrario daquele da forma. O balé supervaloriza o trabalho da forma e há outras que não encontramos mais essa forma. Eu como espectador dessa nova forma, tenho que desenvolver uma capacidade de apreciação de gestos mínimos. Tenho que focar. Isso significa que o foco se afasta da conformação que sempre foi parte da teoria clássica.

Como se fosse um holofote naquilo que me interessa ver e refletir, mas ainda não avancei além disso. Eu ainda estou em busca da compreensão dessa forma, mas tem a ver com o dramático e pos-dramático, onde o dramático cria formas fictícias enquanto o pos-dramatico deixa brechas para serem completadas, relacionadas.



5 - A Forma está ligada diretamente com o teatro de hoje. O conteúdo das peças didáticas de Brecht, por exemplo, já não interessam?


Eu quero dizer apenas que naturalmente , é claro, que mesmo que tenhamos uma forma, ou uma não forma, a forma é decisiva e não o conteúdo. O conteúdo não faz a mínima diferença porque tudo, todo conteúdo já é colocado em circulação. A maneira de resistência esta mais na forma do que no conteúdo. Trazer uma forma que as pessoas não esperam pode mexer com as pessoas.

Brecht é um mito. É um desconhecido. O Brecht que o mundo todo conhece é o traduzido para inglês e isso é metade de Brecht. Muitos de seus textos são entendidos de forma muito errada. Existem vários Brechts.

Hoje existe a necessidade de redescobrir o Brecht muito atual das peças didáticas. Brecht e toda a sua atualidade. Em 2026, uma pequena profecia, os direitos de Brecht serão de domínio publico, 70 anos depois de quando ele morreu, aí teremos um novo Brecht. Acho que essa seria uma boa informação para terminarmos.

Transcrição da Palestra: Henrique Fontes (Atores à Deriva - Natal - RN)